A Ponte

 

“Ajudai-vos uns aos outros...

e deste modo cumprireis a lei de Cristo”

(Gal 6,1)

 

 

Quando São Pedro perguntou a Jesus sobre quantas vezes deveria perdoar, o Senhor lhe respondeu: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22). Com isso, Jesus nos ensinou a perdoar sempre.

 

Acontece que, no nosso dia-a-dia, temos presenciado uma série de brigas e desavenças: entre pais e filhos; irmãos; maridos e mulheres; patrões e empregados; e amigos. E no entanto, muitas vezes, essas pessoas não conseguem se reconciliar por elas próprias.

 

Isso me faz lembrar da seguinte história, que uma vez ouvi um amigo contar:

 

Certa vez, dois irmãos que moravam em fazendas vizinhas, separadas apenas por um rio, entraram em conflito. Foi a primeira grande desavença em toda uma vida trabalhando lado a lado, repartindo as ferramentas e cuidando um do outro.

 

Durante anos, ao final de cada dia, percorriam uma estreita, porém comprida estrada, que corria ao longo do rio para poderem atravessá-lo e desfrutarem um da companhia do outro.

 

Apesar do cansaço, faziam-no com prazer, pois se amavam. Mas agora tudo havia mudado. O que começara com um pequeno mal entendido finalmente explodiu numa troca de palavras ríspidas, seguidas por semanas de total silêncio.

 

Numa manhã, o irmão mais velho ouviu alguém bater à sua porta. Ao abri-la, notou um homem com uma caixa de ferramentas de carpinteiro em sua mão.

 

¾ Estou procurando por trabalho, talvez você tenha um pequeno serviço aqui e ali.

 

¾ Sim! Claro que tenho trabalho para você. Veja aquela fazenda além do riacho. É de meu vizinho; na realidade, meu irmão mais novo. Brigamos muito e não mais posso suportá-lo. Vê aquela pilha de madeira perto do celeiro? Quero que você me construa uma cerca bem alta ao longo do rio para que eu não mais precise vê-lo.

 

¾ Acho que entendo a situação. Certamente farei um trabalho que lhe deixará satisfeito.

 

Como precisava ir a cidade, o irmão mais velho ajudou o carpinteiro a encontrar o material e partiu.

 

O homem trabalhou arduamente durante todo aquele dia medindo, cortando e pregando. Já anoitecia quando terminou sua obra, ao mesmo tempo que o fazendeiro retornava. Porém, seus olhos não podiam acreditar no que viam. Não havia qualquer cerca. Em seu lugar estava uma ponte, feita de tábuas de madeira e troncos de árvore, ligando um lado do riacho ao outro.

 

 

Era realmente um belo trabalho, mas, enfurecido, exclamou:

 

¾ Você é muito insolente em construir esta ponte após tudo que lhe contei!

 

No entanto, as surpresas não haviam terminado. Ao erguer seus olhos para a ponte mais uma vez, viu seu irmão aproximando-se da outra margem, correndo com seus braços abertos. Cada um dos irmãos permaneceu imóvel de seu lado do rio, quando, num só impulso, correram um na direção do outro, abraçando-se e chorando no meio da ponte. Emocionados, viram o carpinteiro arrumando suas ferramentas e partindo.

 

¾ Espere, disse o mais velho, fique conosco por mais alguns dias. Tenho muitos outros projetos para você.

 

E o carpinteiro respondeu:

 

¾ Adoraria ficar. Mas tenho muitas outras pontes para construir.

 

Jesus ensina a perdoar, mas em certas ocasiões isso pode se tornar algo de difícil realização por parte de pessoas que brigaram e que, muitas vezes, podem ter se agredido mutuamente, até mesmo com palavras rudes ou atitudes grosseiras.

 

Portanto, quando presenciamos entes queridos que por algum motivo se separaram, ou que passaram a se desentender um com o outro, é nosso dever e obrigação, como Cristãos, envidarmos todos os esforços que estiverem a nosso alcance para que a reconciliação dessas pessoas seja facilitada.

 

Pecamos por omissão (ver Catecismo, par. 1853) toda vez que deixamos de praticar atos que são do agrado de Deus. E é desejo maior dEle que amemos-nos uns aos outros em Cristo Jesus (Jo 15,12).

 

 

 

Texto escrito por

Marcos de Lacerda Pessoa

em junho de 2006

para o jornal ‘O CAPUCHINHO’

 

 

 

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