“Eu nem te conto!...”

 

 

A morte e a vida estão no poder da língua (Pv. 18,21).

Irmãos, não faleis mal uns dos outros (Tg. 4,11).

 

 

É curioso, mas toda vez que alguém diz “Eu nem te conto!...”, está justamente avisando que pretende fazer exatamente o contrário: vai rasgar o verbo e nos contar, em grandes detalhes, uma história incrível sobre alguma pessoa.

 

E essa expressão vem geralmente acompanhada de um sorrisinho malicioso, de uma sobrancelha estrategicamente levantada ou, quem sabe, de um tom de voz mais baixo anunciando um segredo, que, é claro, vai tornar a conversa ainda mais atrativa.

 

E, diante disso, o que nós geralmente fazemos? Dizemos que não nos interessamos pela vida dos outros e mudamos de assunto? É claro que não! Aí é que nos ajeitamos melhor e apuramos os ouvidos para não perder “uma vírgula” do assunto que está por vir.

 

Está, assim, formada a rede de fofoca, pois aquele assunto, com toda a certeza, vai fluir naturalmente de boca em boca, espalhando-se a uma velocidade inimaginável.

 

 

Há pelo menos dois tipos identificados de fofocas:

 

1. As inocentes: quando ouvimos problemas sérios de alguém, e por vontade de ajudar, acabamos contando a outros, em busca de soluções;

 

2. As inventadas: são as maldosas, frutos em geral do ciúme e da inveja, objetivando destruir alguém ou alguma instituição. A pessoa que faz a intriga sabe do que está falando. Ainda existem fofocas sem fundamento, feitas por pessoas com compulsão para mentir, ou por quem tem o hábito de aumentar aquilo que ouve.

 

Há, também, os locais preferidos para se fazer fofoca, como por exemplo, os seguintes:

 

1. Os corredores das empresas, as salas de cafezinho e os fumódromos: são os locais ideais para os funcionários mexericarem a respeito de seus chefes ou da instituição que os emprega;

 

 

2. Os cabeleireiros e salões de beleza: são, definitivamente, os lugares eleitos para a “fofocagem” feminina;

 

 

3. Os clubes, os bares e as saunas: são em geral os locais preferidos para os homens fofocarem;

 

 

4. O banheiro feminino em dia de festa: é onde saem os mexericos mais cabeludos! E é muito comum as mulheres irem “em grupos” aos banheiros, especialmente para fofocarem sobre as demais pessoas presentes.

 

 

Ao contrário do que em geral se pensa, fofocar não é falar de outras pessoas pelas costas.  Veja esses exemplos Bíblicos:

 

Deus não está fofocando quando Ele fala sobre Faraó e centenas de outros, sem a permissão deles. Os apóstolos e os primeiros discípulos de Jesus não estavam fofocando quando começaram a espalhar o Evangelho. Jesus não estava fofocando quando falou coisas negativas sobre Herodes (Mc. 8,15), ou a respeito dos Fariseus, (Mt. 12,38-40 , Lc. 12,1-3), dos Doutores da Lei (Lc. 20,45-46) e dos Saduceus (Mt. 16,6). Caso contrário, a Bíblia deveria ser considerada como um livro de mexericos, o que não é verdade!

 

Mas, então, o que é fofoca?

 

Fofocar é falar mal de outras pessoas ou instituições com o intuito de destruí-las ou fazer com que os outros tenham um conceito negativo sobre elas.

 

A fofoca é uma “falsa testemunha” da blasfêmia. E a blasfêmia é uma acusação falsa que difama e prejudica uma reputação. Então, enquanto a blasfêmia é a mentira, a fofoca é a propagação dessa mentira.

 

Apesar da palavra fofoca não aparecer na Bíblia, o conceito está lá, bem presente, pois a fofoca é descrita por termos bíblicos como “maledicência”, ”falar mal”, “mexerico”, “bisbilhotice”, “blasfêmia” e “falso testemunho”.  Veja algumas citações nesse sentido:

 

O mandamento:

 Não dirás falso testemunho…

(Mc. 10,19);

 

Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo…

(Lv. 19,16);

 

Não espalharás notícias falsas, nem darás mão ao ímpio,

para seres testemunha maldosa

(Ex. 23,1);

 

Porque do coração procedem maus desígnios…

falso testemunho, blasfêmias.

Isso é o que contamina o homem

(Mt. 15,19);

 

Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo,

de hipocrisias e invejas e toda sorte de maledicência

(I Pe. 2,1);

 

Longe de vós toda amargura e cólera,

ira e gritaria, e blasfêmias,

bem como toda malícia

(Ef. 4,31).

 

O fato é que a fofoca é perniciosa, pois machuca e desune as pessoas; e destrói instituições. E, por ser extremamente prejudicial, o povo de Deus deve manter-se vigilante quanto a isso, e permanecer distante dela.

 

Deus deseja profundamente que experimentemos unidade e harmonia uns com os outros. A unidade é a alma da comunhão, isso é, de como Deus pretende que experimentemos a vida conjunta. Assim como todo pai, nosso Pai celeste tem prazer em ver os filhos em harmonia uns com os outros.

 

Assim, como membros da família de Deus, é nossa responsabilidade preservar essa unidade, protegendo a comunhão e promovendo a harmonia entre todos. E para isso, é necessário que procuremos sempre nos concentrar no que temos em comum com os outros, e nunca nas diferenças (Rm. 14,19).

 

Considerando que Deus escolheu nos dar diferentes personalidades, formações, raças e preferências, devemos sempre apreciar essas diferenças com amor, e não simplesmente “tolerá-las”. Deus quer a unidade, não a uniformidade! E para o bem da unidade, jamais devemos deixar que as diferenças nos dividam. Precisamos nos manter concentrados no que mais importa, que é aprender a amar uns aos outros, como Cristo nos amou. Pois quando focamos nas diferenças, a divisão sempre acontece. Então, se nos concentramos em amar uns aos outros e em cumprir os propósitos de Deus, com toda certeza encontramos a harmonia.

 

Em todo local ou ocasião, mas especialmente no ambiente de trabalho, é sempre mais fácil ficar de lado e atirar pedras naqueles que estão realizando alguma coisa, do que se envolver, se comprometer e contribuir. Quanto a isso, Deus nos adverte repetidamente que não critiquemos ou julguemos uns aos outros (Rm. 14,13; Tg. 4,11; Ef. 4,29; Mt. 5,9; Tg. 5,9).  E nesse sentido, é conveniente mantermos sempre em mente que, quando criticamos uma outra pessoa, estamos na verdade interferindo seriamente nos assuntos de Deus:

 

Quem és tu, que julgas o servo alheio?

Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai;

mas estará firme,

porque poderoso é o Senhor para o firmar

(Rm. 14,4).

 

Sempre que julgamos alguém, quatro coisas acontecem instantaneamente:

 

1. Perdemos a nossa comunhão com Deus;

 

2. Expomos o nosso próprio orgulho e insegurança;

 

3. Colocamo-nos em uma situação pela qual seremos julgados por Deus; e

 

4. Prejudicamos a unidade com nossos irmãos.

 

Um espírito crítico, portanto, é um vício que acaba nos custando caro!

 

Julgar, culpar e criticar os nossos irmãos em Cristo é trabalho que devemos a todo custo evitar, por ser de natureza diabólica. Veja como a Bíblia chama Satanás:

 

...acusador de nossos irmãos,

o qual, diante de nosso Deus, acusa dia e noite

(Ap. 12,10).

 

Fofocar é transmitir informações quando não somos nem parte do problema, nem parte da solução. Portanto, nós naturalmente sabemos que espalhar fofocas é algo tão errado quanto ouvi-las. A esse respeito, alguém já disse que, ao ouvirmos uma fofoca, é como estarmos receptando uma mercadoria roubada, pois isso nos faz igualmente culpados pela má ação praticada.

 

Portanto, quando alguém começar a fofocar em nossos ouvidos, que tenhamos a coragem e o espírito Cristão de dizer: “Por favor, pare! Você já falou diretamente com a pessoa?”.

 

A forma mais rápida de pôr fim a um conflito é carinhosamente enfrentar os que estão fofocando e insistir para que parem. E sobre esse assunto, Salomão disse o seguinte:

 

Faltando lenha, apaga-se o fogo;

e não havendo difamador, cessa a contenda

(Pv. 26,20).

 

A fofoca e a crítica são fortes sinais da necessidade de auto-afirmação por parte daquele que as pratica. De fato, quanto mais uma pessoa se aproxima de Jesus Cristo, menos ela julga os outros. E esse é um teste infalível, pois aqueles que estão sempre criticando os outros, já se afastaram de Cristo! Podem ainda pertencer-Lhe, mas certamente perderam o Seu espírito de amor.

 

Nós não somos melhores simplesmente por pintarmos os outros com cores mais carregadas. Mas, curiosamente, aumentamos o nosso gozo espiritual e o nosso testemunho vivo em favor de Cristo, quando nos recusamos a passar adiante informações negativas a respeito de outrem, ou nos abstemos de julgar as obras ou os atos das outras pessoas.

 

Portanto, na próxima vez que nos disserem “Eu nem te conto!...”, devemos agir com o verdadeiro espírito Cristão, evitando a consumação da fofoca. Essa atitude pode ser difícil a princípio, mas devemos crer que a sua prática logo nos trará uma imensa alegria!

 

 

Além disso, um comportamento assim fortalecerá a união e o amor de todos que nos cercam; e, sem dúvida, será muito recompensado por Jesus Cristo, que garantiu a Sua presença mística no meio de Sua Igreja unida, quando categoricamente nos fez a maravilhosa promessa de que...

 

...tudo quanto ligarmos na terra será ligado no céu;

e tudo quanto desligarmos na terra será desligado no céu

(ver Mt. 18,18).

 

 

Texto escrito por

Marcos de Lacerda Pessoa,

em junho de 2005,

para o jornal ‘O Capuchinho’

Curitiba – PR.

 

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