O Melhor Pedaço
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Zé Maeves era um velho mendigo que perambulava pelas ruas de
Curitiba, na década de 1970. Ao seu
lado, o fiel escudeiro, um vira lata branco e preto que atendia pelo nome de
Bigode. Zé Maeves não pedia dinheiro. Aceitava
sempre um pão, uma banana, um pedaço de bolo ou um almoço feito com sobras de
comida dos mais abastados. Quando
suas roupas estavam imprestáveis, logo era socorrido por alguma alma
caridosa. Mudava a apresentação e era alvo de brincadeiras.
Zé Maeves (1889-1977) Zé Maeves era conhecido como um homem bom, que perdera a
razão, a família, os amigos e até a identidade. Não tomava bebida alcoólica,
estava sempre tranqüilo, mesmo quando não havia recebido nem um pouco de
comida. Dizia sempre que Deus lhe daria um pouco na hora certa e, sempre na
hora que Deus determinava, alguém lhe estendia uma porção de alimentos. Zé Maeves agradecia e rogava a Deus pela pessoa que o
ajudava. Tudo que ganhava, dava primeiro para o Bigode, que, paciente, comia e
ficava a esperar por mais um pouco. Não tinham onde dormir; onde anoiteciam,
lá dormiam. Quando chovia, procuravam abrigo embaixo de uma ponte ornamental
que havia na Praça do Japão, e ali o mendigo ficava a meditar, com um olhar
perdido no horizonte. A figura
dele me deixava sempre pensativo, pois eu não entendia aquela vida
vegetativa, sem progresso, sem esperanças e sem um futuro promissor, que Zé Maeves levava. Certo dia, com a
desculpa de lhe oferecer umas bananas fui bater um papo com o velho Zé
Maeves. Iniciei a conversa falando do Bigode,
depois perguntei pela idade dele, o que Zé Maeves
não soube me responder. Dizia
não ter idéia, pois se encontraram um certo dia
quando ambos andavam a toa pelas ruas da cidade. ¾ "Nossa amizade começou com um pedaço de pão",
disse o mendigo. "Ele parecia estar faminto, eu
lhe ofereci um pouco do meu almoço, e ele agradeceu abanando o rabo; e daí,
não me largou mais. Ele me ajuda muito e eu retribuo essa ajuda sempre que
posso". ¾ "Como vocês se ajudam?", perguntei. ¾ "Ele me vigia quando estou dormindo; ninguém pode
chegar perto que ele late e pode até atacar! Também quando ele dorme, eu fico
vigiando para que outro cachorro não o incomode". Continuando
a conversa, perguntei: ¾ "Zé Maeves, você tem algum
desejo de vida?". ¾ "Sim", respondeu ele, "tenho vontade de comer um cachorro quente, daqueles que
o Polaco Baranhuk vende ali na esquina". ¾ "Só isso?", indaguei. ¾ "É, no momento é só isso que eu
desejo". ¾ "Pois bem, vou satisfazer agora esse
grande desejo".
Saí e comprei um cachorro quente para o mendigo. Voltei e lhe entreguei. Ele
arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu a dádiva e em seguida tirou a
salsicha, deu para o Bigode e comeu o pão com os temperos. Não entendi aquele
gesto do mendigo, pois imaginava ser a salsicha o melhor pedaço. ¾ "Por que você deu para o Bigode
logo a salsicha?", perguntei
intrigado. Ele, com
a boca cheia, respondeu: ¾ "Para o melhor amigo, o melhor
pedaço". E
continuou comendo, alegre e satisfeito. Despedi-me
do Zé Maeves, passei a mão na cabeça do Bigode e
saí pensando com meus botões: Aprendi alguma coisa hoje. Como é bom ter amigos; pessoas em
que possamos confiar. E saber reconhecer neles o PARA
O MELHOR AMIGO, O
MELHOR PEDAÇO. Para recomendar esta página a alguém, clique no escudo acima. |